QUESITOS

A semana passou a estar ocupada de diferentes maneiras para além das obrigações domésticas: mulher-a-dias, desportista e estudante.
Ou seja, ganhava dinheiro para mim, tratava do meu corpo e também da minha cabeça.
Mas o que tinha planeado não se contentava só com isto; era tão pouco para o que as necessidades iríam requisitar. Afinal, fazer um bife e passar uma camisa a ferro qualquer uma podería; exibir um corpo tonificado está ao alcance da maioria das mulheres que se cuidam e para dizer yes, non e gracías bastava assistir a um qualquer programa de televisão.
Tudo o que desenvolvi e projectei era diferente, chegava mais longe e estar apenas dependente de mim exigiu que me focasse no que era realmente importante, dispensar o acessório, não perder tempo nem energia com hesitações, dar alguma atenção ao instinto e sobretudo, observar, observar muito e agrupar elementos.
Para responder a estes quesitos tornei-me fanática de métodos. Fazer bem mas com rigor, rápido mas sem erros.
Passei a analisar o comportamento das pessoas quando seguía no autocarro para os treinos, a ver o lixo nas casas que limpava, a estudar as reacções dos meus colegas de curso quando aparecía de saia ou com uma blusa decotada.
O meu marido sentía-se desconfortável à hora das refeições. Prendía-me a todos os seus gestos, pigarrear, a forma de pegar o talher, os olhos semi-cerrados quando levava o copo à boca. Tudo me era importante.
Uma noite perguntou-me porque razão tanto o olhava. Respondi-lhe que não quería que lhe faltasse coisa alguma. Senti que a conversa iría levar outro rumo, disse-lhe que era livre para ter sexo com quem quisesse desde que isso não comprometesse a nossa imagem familiar. Estilhaçou o prato contra a parede, levantou-se, a cadeira caíu e eu estiquei a faca na sua direcção.
Quesito básico no ataque: Não afrontes o inimgo se não estiveres do lado mais forte.

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