Para mim estava mais do que claro que esta mulher era esperta, não ía em histórias da carochinha nem em emoções vendidas ao desbarato. As minhas lágrimas não a comoveram, vía-se que estava habituada a tomar decisões sem que estas se fizessem sentir como um peso na consciência.
Sabía pouco dela, que vivía sózinha, era patroa de si mesma e que pintava o cabelo de quase negro, tinha um excelente gosto para se vestir, sóbrio, clássico, intemporal, uma voz muito baixa, o conceito da mulher independente personificado. Mas para além do que estava à vista desarmada eu estava a zero, sem casa, sem sitio onde rumar e completamente desprotegida.
Alterar toda a minha história sería pior ainda.
Era meia-mentira, mas tinha que ser credível, eu tinha que fazer dela uma verdade, a minha verdade ou esta mulher punha-me na rua antes do diabo esfregar o olho.
Dormitei, quería sentir a altura dela se levantar para eu fazê-lo de seguida.
Preparei um pequeno-almoço completo, tive cuidado na escolha do que não engordava mas que era apetitoso, dispuz a mesa silenciosamente, fiz-me de morta.
Quando se sentou pareceu que nada do que eu tinha feito tinha importância. Esticou o guardanapo no colo e comeu a olhar para o portátil aberto.
Mantive-me de pé, tipo serviçal obediente. Ficou uma atmosfera desconfortável, eu não sabía o que dizer, precisava que ela me desse uma deixa para saber que tipo de reacção oferecer-lhe, mas nada e eu ansiava por meter uma cunha na conversa para a oferta que me fizera meses atrás para empregada a tempo inteiro.
Ouvi a porta abrir-se e fechar-se. Apareceu uma mulher muito alta e de cabelo cor de palha dos países de Leste.
A dona da casa disse-me que era a empregada.
Senti o chão a afundar-se e perdi os sentidos.