ACREDITAR NA MENTIRA

Para mim estava mais do que claro que esta mulher era esperta, não ía em histórias da carochinha nem em emoções vendidas ao desbarato. As minhas lágrimas não a comoveram, vía-se que estava habituada a tomar decisões sem que estas se fizessem sentir como um peso na consciência.
Sabía pouco dela, que vivía sózinha, era patroa de si mesma e que pintava o cabelo de quase negro, tinha um excelente gosto para se vestir, sóbrio, clássico, intemporal, uma voz muito baixa, o conceito da mulher independente personificado. Mas para além do que estava à vista desarmada eu estava a zero, sem casa, sem sitio onde rumar e completamente desprotegida.
Alterar toda a minha história sería pior ainda.
Era meia-mentira, mas tinha que ser credível, eu tinha que fazer dela uma verdade, a minha verdade ou esta mulher punha-me na rua antes do diabo esfregar o olho.
Dormitei, quería sentir a altura dela se levantar para eu fazê-lo de seguida.
Preparei um pequeno-almoço completo, tive cuidado na escolha do que não engordava mas que era apetitoso, dispuz a mesa silenciosamente, fiz-me de morta.
Quando se sentou pareceu que nada do que eu tinha feito tinha importância. Esticou o guardanapo no colo e comeu a olhar para o portátil aberto.
Mantive-me de pé, tipo serviçal obediente. Ficou uma atmosfera desconfortável, eu não sabía o que dizer, precisava que ela me desse uma deixa para saber que tipo de reacção oferecer-lhe, mas nada e eu ansiava por meter uma cunha na conversa para a oferta que me fizera meses atrás para empregada a tempo inteiro.
Ouvi a porta abrir-se e fechar-se. Apareceu uma mulher muito alta e de cabelo cor de palha dos países de Leste.
A dona da casa disse-me que era a empregada.
Senti o chão a afundar-se e perdi os sentidos.

FITAS

Muito daquilo que condenamos nos outros acabamos por fazer. Não totalmente deliberado ou até mesmo consciente do que nos levou até esse ponto. Achamo-nos lá, ponto. E depois é tentar dar a volta à coisa da forma mais elegante.
Dormir numa escada de um prédio não tem nada de elegante, mas resguarda do sereno da noite e de sermos encontrados por quem não queremos.
Quem eu quería que aparecesse e me tivesse aberto a porta não estava.
Fiquei ali, primeiro encostada à parede, a luz das escadas a apagar e eu acendê-la; depois sentei-me na mala e por fim já nada importava, nem luz, nem posição, pelo que me acomodei o melhor que poude no capacho da entrada.
Não sei que horas eram quando senti o pé da mulher a tocar-me nas pernas. Achei-a mais alta do que o costume, mais negra do que era hábito seu, ou então foi tudo uma questão de perspectiva e de acordar tolhida e desorientada no espaço e no tempo.
Perguntou-me que é que eu estava ali a fazer, comecei a choramingar, uma historieta de fazer inveja a qualquer drama. Inventei que tinha sido espancada pelo meu marido e que fugira, que tinha medo, não tinha a quem recorrer, era sózinha no mundo e ela tinha sido a única alma caridosa que olhara por mim.
A mulher arregalou os olhos e manteve-se em silêncio, mandou-me entrar, fomos para a cozinha, fez um chá e perguntou-me se tinha fome. Eu tinha, mas o meu papel era fazer-me desprendida dessas coisas e respondi-lhe que não era capaz de engolir fosse o que fosse.
Não me perguntou mais nada, deu-me corda suficiente para eu me enforcar sózinha no meio das minhas invenções mirabolantes. Mas credíveis, eu já ouvira em programas de televisão muita coisa igual à que eu lhe repetira.
A madrugada chegou e nós as duas à mesa a tomar chá.
Levou-me ao quarto de visitas que eu conhecía tão bem, disse-me para eu descansar, mas quando acordasse tería de lhe contar a verdade ou a porta de saída estaría à minha espera.

SEM ANESTESIA

Depois da euforia e conforme o dia foi avançando, a pequenina mala com que saí de casa parecía um trambolho, uma coisa a despropósito e as perguntas foram aparecendo aos poucos, receosas da resposta que eu sabía de antemão.
Para onde ir?
Onde dormir?
Que comer, onde tomar banho, onde vestir-me, onde largar a mala?
De repente vi-me sózinha, perseguida, desconfiada que viessem atrás de mim, tinha de me esconder onde não me encontrassem.
Mentalmente contei o meu dinheiro. Dava perfeitamente para passar a noite num hotel, coisa modesta, não estava a fim de gastar do meu pecúlio e além disso, todo o dinheiro era pouco para os meus objectivos. Constatei que não conhecía nada da cidade onde moro. Hotéis, que tipo de hotéis não fazem perguntas nem pedem o BI, esse era outro problema.
Recordei-me do ginásio, do treinador, da queca que tinhamos dado. Mas voltar lá estava fora de questão. Não saía duma para me meter noutra.
Pedir abrigo aos meus pais sería entregar-me ao meu marido e, com toda a certeza com um enxovalho em cima se não umas boas chapadas pela mão do meu querido progenitor.
Envolvida neste beco sem saída, passei a cidade de um lado ao outro de autocarro. Saía de um, tomava outro e depois outro. Ficou escuro, noite mesmo, pouca gente na rua, menos autocarros.
Lembrei-me então daquela mulher onde trabalhara e que me quería a tempo inteiro.
Sem saber o que ía encontrar bati-lhe a porta. Enquanto esperava que atendesse, inventei mil e uma histórias para lhe contar, nunca a verdadeira.
Mas não estava ninguém em casa.

FLASH BACK

Não perco tempo a remoer no que já passou. Muito menos no que podería ter dito ou feito.
Ao contrário do que a grande maioria das pessoas pensa, uma dona-de-casa tem demasiadas ocupações para se diluír em hipóteses sobre executar determinada tarefa. Apenas tem que ir a ela e fazê-la, nada mais. Esse tipo de atitude treina, objectiva-se.
Mas!
Há sempre um mas em todas as histórias porque de facto, ele existe na vida real.
Naquele dia, naquele dia especifico e só mesmo naquele diazinho eu tería dado muito da minha vida para assistir à cara do meu marido a entrar em casa e encontrar paredes. Nada mais do que paredes marcadas pelo contorno dos quadros, dos espelhos, dos móveis, tudo coisas compradas por ele, com o dinheiro dele.
Achei-me única no pormenor de lhe deixar a chave enfiada na fechadura do lado de fora.
Foi um sentimento pleno, cheio, uma vitória a sério.
O gosto da vingança é bom, muito bom, eu gostei. Talvez porque nunca o tivesse sentido, nunca tivesse sido apreciada pelo meu valor, nem pelos meus pais nem pelo meu marido, talvez porque sempre tenha acatado o que todos me disseram, contrariada por dentro mas sempre calada, autorizando a sujeição. Senti-me tão grande nesse dia, tão corajosa de tomar uma atitude tão derradeira e não sentir medo, não pensar em consequências, em justificações para além de mim mesma.
Há dias assim na vida de uma pessoa. Na minha houve. Há. E esse foi o primeiro de muitos que se seguiram até aqui onde agora estou. Faría tudo de novo, amargaría quantas vezes fosse preciso desde esse dia até hoje. Vitória, Maria Vitória.

O ESPÓLIO

A partir do momento em que inscrevi a minha assinatura naqueles papéis soube que era irreversível a minha posição. Mesmo que algum milagre acontecesse, nada sería estável e suportável ao ponto de mantermos o estatuto social do matrimónio. Aliás, sería permanecer num logro: Eu só tinha pelo meu marido ódio e ele, mais do mesmo.
Até que ponto o tempo me permitiria agir e reorganizar-me eu desconhecía. Estas coisas dos tribunais demoram séculos mas a verdade, é que eu não sabía os trâmites das leis e se a coisa estaría ou não muito avançada.
Nos primeiros dias andei desnorteada, dormía mal, pouco, a minha única preocupação era saber para onde ir. Acho que me revoltei muito e especialmente contra mim mesma por ter deixado a minha vida entregue à dependência de outrém, por ter largado a faculdade, por ter perdido o interesse nos meus sonhos. Quando nos apercebemos já passaram anos, perdemos o ritmo, a embalagem, a busca, tornamo-nos preguiçosos e acomodados e vamos adiando, adiando.
Neste ponto, não havíam mais contemplações para mim. Não tinha ninguém a quem recorrer nem ninguém aparecería a passar-me a mão pela cabeça.
O curso de espanhol estava no fim, dia de exame.
Fiz o que tinha a fazer e saí satisfeita com o que aproveitara do curso ainda patrocinado pelo meu marido. No regresso a casa, no autocarro, apanhei um jornal de distribuição gratuita, li-o de ponta a ponta, incluíndo os signos, os tarots, os adivinhos, os penhores e um particularmente.
Saí uma paragem antes, fui a uma cabine telefónica, combinei hora, local.
Passados dois dias bateram-me à porta, espiolharam tudo meticulosamente, acertámos o preço.
Conhecem aqueles anúncios que dizem que compram o recheio integral das casas?
Compraram tudo, até a escova de dentes do meu marido foi no lote.
Exigi dinheiro à vista. Pagaram.
Peguei na minha malinha, bati a porta e deixei a chave enfiada na fechadura.

RETIRAR AS TROPAS

Uma noite chegou e senti-o junto à porta do meu quarto. Fiquei muito quieta, pensei que a qualquer momento a fosse arrombar. Depois que lhe ouvi os passos a afastarem-se acendi uma vela e vi no chão uns papéis dobrados. Não foi uma surpresa, já o esperava: eram os papéis do divórcio com uma cruz na linha onde devería assinar.
Nessa noite não dormi. Explorei todas as hipóteses que se apresentavam, quais as minhas capacidades de subsistência sem o tecto que me abrigava, que exigências podería fazer, o que sería a minha vida a partir daí. As expectativas não eram brilhantes. Não podía contar com os meus pais, não tinha amigos que não fossem os dele, estava sózinha nesta batalha e as armas mais poderosas eram as dele.
Guardei os papéis, deixei passar vários dias, sabía que ele tinha forçosamente de me voltar a procurar se eu me mantivesse neste silêncio.
E assim aconteceu.
Numa manhã ao destrancar a porta do meu quarto, lá estava ele.
Assustei-me, confesso, não tinha imaginado que nos voltassemos a encarar desta forma, mas a questão entre as relações é mesmo essa, não podemos adivinhar o que o outro possa fazer.
O tom de voz era distante, frio, exigente, quería os papéis e assinados.
E eu assinei.
Há que saber quando é a altura de saír para nos salvarmos.

VINGANÇAS

Só tomei verdadeira consciência da importância do dinheiro quando me vi privada dele.
Se bem que tivesse um pequeno pecúlio, todo ganho com o meu esforço, não gastara um único cêntimo, o que o remetía para um capricho que me fazía sentir vitoriosa e falsamente independente. Sempre vivera às custas de alguém, aperceber-me-ía deste tipo de escravatura muito em breve e da maneira mais sentida na carne. Tirando os muito, muito ricos, o dinheiro nunca é suficiente. Ou pelo menos naquele tempo ainda não o era: Dava para me aguentar o máximo uns dois meses e alojada numa pensão rasca.
A vida continuou, agora sem palavra alguma e também sem o meu marido deixar o dinheiro que habitualmente me dava para governar a casa durante o mês.
De inicio pensei que fora esquecimento, mas os dias passaram até o mês terminar, entrar no seguinte e nada.
Percebi que esta sería a sua forma de me dizer que ele é que mandava, o macho era ele, ele era o dono da casa e de mim.
Entrei no jogo. As contas da luz, da água, do telefone e do gás venceram-se, cortaram tudo. Esgotei a existência da arca-frigorifica e dos enlatados, deixou de haver comida.
Ele fez da casa apenas um sitio para dormir. Deixei de o ver, mas sentia-o chegar.
Eu deixei de limpar a casa. Aproveitava quando ía trabalhar, tomava banho e lavava a minha roupa por esses sitios alheios, comi da sopa que deixava feita para os donos das casas. Doutras vezes aparecía em casa dos meus pais e petiscava por lá sem dar a entender a fome que tinha ou o extremo em que vivía.
Não tinha que me lamentar, afinal fora eu que abrira a boca e arranjara esta situação.
Só precisava de mais algum tempo e mais algum dinheiro para me ir embora. O meu projecto tería que ficar adiado, por agora limitava-me a experimentar as técnicas de sobrevivência.