FALTAS

Não me considero uma pessoa violenta, dada a enfrentar os outros no contacto fisico. Embora já tivesse acontecido com o meu marido e com o meu cunhado, não os posso ver como actos de quem gere a sua vida na brutalidade da pancada. Aliás, essas atitudes só surgiram como manobras de defesa ao ataque de que estava ou estaría eminente a ser vitima.
Não posso tão pouco recorrer às teorias freudianas da ausência de um pai, ausência de pénis e transformar esta minha aparente propensão para a conduta mais radical em que eu detestaría o masculino. Mentira. Gosto de homens, muito. E tolo sería se apresentasse como desculpa para o meu comportamento algum facto obscuro na minha infância. Nada disso. Fui uma criança normal como todas as outras.
A verdade é que os gestos que tive não foram manipulados, ou seja pensados.
Saltaram como molas, uma causa-efeito que nem mesma eu sei bem porque se revelaram daquela forma.
Isto tudo para dizer que naquele tempo o boxe fazía-me bem. E que a falta dele me fez um mal danado.

O NEGÓCIO

O tempo não perdoa mas ameniza. Deixam de se olhar as coisas como tragédias em que todos têm forçosamente de morrer, ou por morte cometida por outrém ou num gesto de hara kiri.
Não tenho o minimo perfil de suicida e se alguém tem que penar que seja outro.
Passado algum tempo houve condições para estarmos os dois sentados à mesa. As refeições eram tomadas no maior silêncio, eu cuidava para que nada faltasse para que ele não tivesse que pedir.
Uma noite, entre o prato de sopa tirado e o tacho de carne estufada, agarrou-me no pulso, perguntou-me o que eu quería fazer da nossa vida.
Sentei-me.
Que mantivessemos o contrato de casamento.
Ele tería uma casa cuidada, alimento, uma esposa para exibir; Eu tería abrigo e meio de sustento por ele; Ele podía ter os affaires que entendesse desde que não os arrastasse para dentro de casa; Eu tería direito a não ser questionada.
Estendi-lhe a mão para selar o negócio.
Mas ele levantou-se e saiu porta fora.

EMBATES

Nessa noite aguentei-me estoicamente.
Mal me tinha nas pernas, a cara desfigurada, inchada, embora com comprimidos as dores eram muitas, sentía que tinha sido cilindrada.
Preparei o jantar, pus a mesa, sentei-me à espera do meu marido. E do embate. Quando me olhou ficou horrorizado, desatou a fazer perguntas, se eu tinha sido assaltada, se tinham entrado em casa, o estado em que estava. Deixei-o falar. Tinha que me poupar. De repente pararam as perguntas, aproximou-se muito do meu rosto, ficou à espera da minha reacção. Disse-lhe que tinha caído do escadote quando limpava os candeeiros de tecto.
Fez-se um silêncio tremendo.
De dedo apontado à minha cara começou a gritar que nem um desalmado que eu tinha um amante. Um amante que me tinha chegado a roupa ao pêlo. Vociferava, dizía calões repetidamente, chamou-me puta. Chamei-lhe ridiculo. Disse que se ía divorciar de mim, que não me aguentava mais, que não quería um casamento destes, que estava infeliz.
Pedi-lhe que se sentasse, que me ouvisse. Mas nada o acalmava. Levantei-me e dirigi-me ao quarto, deu-me um puxão no cabelo e eu gritei com dores. Caí de rabo.
De pé, falava na minha frente, ameaçando-me, dizendo o que me ía acontecer, que me ía pôr na rua, que ele era um homem, ele é que mandava.
Respondi-lhe que fizesse o que entendesse. Nunca conseguiría provar nada de nada em Tribunal, não havíam amantes e eu sempre fora uma excelente dona-de-casa e quanto às obrigações conjugais era a palavra de um contra outro. Tería que pagar muito para se desfazer de mim.
Depois segui de gatas para o quarto e fechei a porta à chave.

ICE, ICE BABE

Um dia magoei-me seriamente nos treinos. Não fiz a esquiva rápida, tinha a cabeça cheia de idéias e conjecturas e desconcentrada apanhei com o saco de areia em cheio na cara. Caí, fiquei atordoada, ouvía falarem comigo mas não conseguía responder. Levaram-me para os balneários e o treinador acertou-me algumas chapadas na cara, sempre a falar comigo, a admoestar-me, a culpar-se por ter admitido uma mulher ali, que isto era o ponto final.
Sentou-me, amparada na sua barriga bojuda e tesa como um tambor, um pano a envolver gelo que me aplicou em cheio no nariz e nos olhos, preparando-me para a figura deformada que tería no dia seguinte, os olhos roxos, a boca inchada, uma batata a fazer de nariz.
Aos poucos comecei a ficar dorida, cada vez mais, cada vez mais intensa a dor em todo o rosto, as desculpas que iría dar em casa para o meu aspecto. Afinal, o meu marido pensava que eu estava de volta dos tachos e não num ringue de boxe.
Doía-me tudo.
O gelo ía derretendo com o calor do meu corpo e um e outro fio escorría até ao decote da t-shirt, molhava-me o soutien, sentía o frio nos mamilos, duros, erectos, um quase prazer que nunca sentira. Era uma mistura de dor e de prazer, uma coisa estranha que me aquecía entre as pernas, no baixo ventre, no abdómen.
Baixei as calças de fato de treino, as cuecas, ergui as pernas e o treinador entrou em mim.
Foi uma coisa rápida, sem beijos, mas com as mãos dele a segurarem-me as ancas, a puxarem-me contra ele, as minhas nádegas a baterem na sua barriga.
Pela primeira vez tive um orgasmo.
E essa foi a última vez que lá fui.

QUESITOS

A semana passou a estar ocupada de diferentes maneiras para além das obrigações domésticas: mulher-a-dias, desportista e estudante.
Ou seja, ganhava dinheiro para mim, tratava do meu corpo e também da minha cabeça.
Mas o que tinha planeado não se contentava só com isto; era tão pouco para o que as necessidades iríam requisitar. Afinal, fazer um bife e passar uma camisa a ferro qualquer uma podería; exibir um corpo tonificado está ao alcance da maioria das mulheres que se cuidam e para dizer yes, non e gracías bastava assistir a um qualquer programa de televisão.
Tudo o que desenvolvi e projectei era diferente, chegava mais longe e estar apenas dependente de mim exigiu que me focasse no que era realmente importante, dispensar o acessório, não perder tempo nem energia com hesitações, dar alguma atenção ao instinto e sobretudo, observar, observar muito e agrupar elementos.
Para responder a estes quesitos tornei-me fanática de métodos. Fazer bem mas com rigor, rápido mas sem erros.
Passei a analisar o comportamento das pessoas quando seguía no autocarro para os treinos, a ver o lixo nas casas que limpava, a estudar as reacções dos meus colegas de curso quando aparecía de saia ou com uma blusa decotada.
O meu marido sentía-se desconfortável à hora das refeições. Prendía-me a todos os seus gestos, pigarrear, a forma de pegar o talher, os olhos semi-cerrados quando levava o copo à boca. Tudo me era importante.
Uma noite perguntou-me porque razão tanto o olhava. Respondi-lhe que não quería que lhe faltasse coisa alguma. Senti que a conversa iría levar outro rumo, disse-lhe que era livre para ter sexo com quem quisesse desde que isso não comprometesse a nossa imagem familiar. Estilhaçou o prato contra a parede, levantou-se, a cadeira caíu e eu estiquei a faca na sua direcção.
Quesito básico no ataque: Não afrontes o inimgo se não estiveres do lado mais forte.

2/4

Uma noite telefonou-me a dizer que não viría jantar, uma reunião qualquer que se prolongaría. Não fiz perguntas, limitei-me a congelar o empadão de carne, fiz uma sandes de queijo e aproveitei para me dedicar com afinco a uma nova paixão recentemente descoberta.
Estratégia. Guerrilha. Arte de combate.
Tenho corrido tudo em bibliotecas para que possa absorver o máximo de conhecimentos sobre este tema. É verdadeiramente fascinante associarmos o que se passa num campo de batalha e o que decorre numa casa entre duas pessoas, as analogias quanto ao ataque, retirada e repouso, fortalecimento e surpresa são brutais.
Chegou perto das duas.
As aceleradelas que fez antes de desligar o carro alertaram-me para que não viría no seu estado normal, mas não esperava que chegasse tão bebedo como entrou.
Atirou-se para cima de mim, um cheiro requentado. Recordei a vez em que me tinha deitado as mãos ao pescoço e agora, musculada, preparei-me para lhe dar um directo que o pusesse KO.
Mas se o socasse e ele perdesse os sentidos, quem tería o trabalho sería eu...
Rolei-o para o lado, tirei-lhe os sapatos e falei-lhe baixo que ele vinha muito cansado. Acalmou-se na sua euforía alcoólica. Ajudei-o a despir-se, passei-lhe uma toalha molhada fria na cara e fiz café.
Chamei-o à cozinha e tomámos os dois uma chávena.
Depois dei-lhe a mão, amparou-se a mim, ainda a falar aos tropeços, deitou-se, cobri-o dedicamente com a roupa de cama e eu estendi-me a seu lado, encaixada. Sossegou e o resto da noite levou-a a roncar como uma automotora.
Eu não preguei olho: O café e o estado nervoso em que fiquei deram-me uma insónia terrível.
Na manhã seguinte chamei-o para um pequeno-almoço especial de cura rápida da ressaca: sais de fruto, sumo de laranja, café preto, torrada com geléia.
Nem me olhava. Não proferiu palavra.
À saída disse-me até logo. Eu disse-lhe que a partir daquela noite ele dormiría no outro quarto.

INVESTIMENTOS

Apesar de me auto-promover culturalmente, fazê-lo sózinha é uma tarefa bem mais árdua do que se houver alguém a levar-nos pela mão até ao caminho certo.
Foi a pensar nisso que achei que tinha de incrementar os meus conhecimentos sobre uma lingua estrangeira. O Inglês e Francês aprendidos na escola eram bons para as férias ou para dar alguma indicação aos turistas de rua, mas passado tanto tempo sem me sentar numa sala de aula, era notório como estava enferrujada.
Se bem que a lingua britânica mantenha uma universalidade incontestável, é também inegável que o nosso País está cada vez mais invadido por Espanhóis, lembrando outras conquistas de má memória que lá surgiram e foram corridas pelo Séc.XVII.
Falei com o meu marido. Mostrei-lhe os meus tempos de ócio e de algum aborrecimento, a minha vontade de estudar espanhol. Argumentei que tudo continuaría organizado cá em casa, nada influenciaría uma, duas horas por semana a minha ausência das obrigações domésticas, o curso era economico e quem sabe, talvez um dia a empresa dele fosse também parte de alguém de Castilla ou de outro reino e eu lhe pudesse valer.
Talvez tenha pensado que alguma coisa mudaría na nossa relação; Acedeu, sem mais questões; Passou-me o cheque para a mão e sorriu, Chica guapa!
Agradeci. Polidamente. E servi o jantar.
É claro que eu tinha dinheiro meu para fazer o curso e ainda outro e mais uns quantos que me desse na real gana.
Mas até isto, ser ele a pagar o investimento que eu decidira fazer em mim, estava nos meus planos. Afinal, ter uma empregada doméstica sem vencimento, não é para todos.
Para mim, há muito deixara de ser.

NÃO HÁ PERGUNTAS

Por vezes magoo-me nos treinos. Venho com nódoas negras, os dedos inchados, os músculos muito doridos.
Sei que uma e outra vez o meu marido ficou a olhar-me; Não me faz perguntas.
Eu também não lhas faço quando pego nas suas cuecas amarelecidas e tesas de esperma seco, nem quando encontro nos bolsos do casaco, restos de embalagens de preservativos.
O sexo há muito tempo que passou a ser entre nós um mero exercicio mental.
Ele sabe-o e eu também.
Partilhamos a mesma área quadrada, ele dá-me o que preciso para subsistir, eu providencio alimento e conforto.
Não desisti da idéia louca que me ataca há alguns anos.
Deixou de ser uma vingança.
Passou a ser um objectivo na minha vida.
Afinal eu só quero ser feliz.

BOXING

Vi o anúncio no jornal que embrulhava os ovos que habitualmente compro a um velhote que está do lado de fora da praça a vender.
Não sei porque razão foi o boxe e não outra coisa mais na moda como o step ou a aeróbica, a hidro ou até mesmo pilates.
Levei mais de uma hora de caminho até dar com aquilo, um velho armazém a fazer de recinto de treinos.
Falei com o encarregado, o treinador, o dono. Nenhum me quería lá: Que ía afastar a concentração dos que queríam mesmo trabalhar, que fosse procurar uma coisa mais para mulheres. Insisti. Fui mesmo carraça. Lá me aceitaram.
Treino duas vezes por semana, suo que nem um cavalo e venho sempre como nova.
Já todos se habituaram à minha presença e os assobios e bocas foleiras pararam com o tempo.
Sinto-me ali como se pertencesse àquele sitio desde sempre.
Há uma harmonia entre os cheiros, os socos e o companheirismo como nunca encontrei em mais lado algum.
Até a decadência dos sacos de areia remendados me encanta.

MERCADO DE VALORES

Uma dona-de-casa não tem salário. Não tem semana americana, com direito a Sábado e Domingo de descanso, tão pouco uma folga. Não há subsidio de almoço nem décimo terceiro mês, nem vencimento extra de férias. Não tem sindicato, não tem seguro de saúde, não tem direito a baixa.
Mas tem patrão e a maioria das vezes é ela o patrão de si mesmo nas obrigações a que se sujeita para manter a indústria doméstica a funcionar.
A certa altura consciencializei de que não tinha dinheiro meu. Tudo o que precisava para adquirir era viável através do dinheiro que o meu marido ganhava. Se quería um extra tinha de lhe dizer e pedir dinheiro, justificando.
É verdade que nunca me negou ou tão pouco se atreveu a chamar-me de esbanjadora.
Mas eu precisava mesmo de ter um meio de me subsistir a mim mesma: comecei a ver os anúncios no jornal. Quase nada me servía e aos poucos a que respondi e fui entrevistada levei uma nega redonda. Um outro era uma farsa: pagavam bem, mas era para fotos e pequenos filmes pornográficos.
Pensei muito: O que é que eu sabía fazer?
Tratar de uma casa.
E foi assim que arranjei um part-time, três vezes por semana, às tardes, não mais de duas horas.
Passava a ferro, limpava casas de banho, mudava os lençóis.
Tenho muito dinheiro meu agora. Não gastei um cêntimo. Três anos a amealhar.
É um capital que preciso para montar o meu negócio.

O CASAMENTO

Entrei no casamento como quem compra a carta de alforria. Pensava eu que conquistava a minha liberdade, a minha identidade e que mesmo não estando a caír de amor pelo meu marido um dia (eu sempre ouvira dizer que isso aparecía aos poucos), havería de o amar como lía nos romances. Haveríamos de ter noites de magia em que ele me levaría ao céu, à lua e a mais uns outros lugares.
Tudo falso.
Depressa me apercebi que o sexo era uma estopada, doía que se fartava, e depois de algum tempo a saber-me a qualquer coisa já tinha terminado. Ele fazía uns roncos, levantava-se, tomava duche e dormía até ao dia seguinte.
Era sempre muito do mesmo.
Levei três anos nesta coisa que me tirava o sono, me dava vómitos e me levou a pensar que talvez eu fosse lésbica. Comecei a olhar as mulheres de outra maneira, a encará-las de outra forma no seu corpo, a procurar descobrir como era o sexo entre mulheres. Mas rapidamente tomei consciência de que a questão não era a minha orientação sexual mas sim o parceiro com quem tinha feito um contrato.
De promessa compra e venda.
E para mim, estava na altura de vender. Só não sabía como.

PRIMEIROS PASSOS

Não fui uma criança problemática, não tive doenças para além das habituais, a minha adolescência desenvolveu-se com o número de borbulhas esperado e a menarca surgiu para bem da continuidade do nome de familia.
O meu marido foi o que me desfez a virgindade e apenas o segundo namorado que tive. O primeiro foi um colega de escola, negro, musculado, dentes muito brancos e por quem me apaixonei verdadeiramente; ele também gostava de mim, eu sentía-o. Mas mal os meus pais souberam do nosso compromisso, chegaram-me a roupa ao pêlo e deram-me o ultimatum: ou acabava com aquilo ou ía para uma escola interna de freiras.
Lá se foi tanto do nosso amor...
Talvez a minha revolta interior tenha começado aí. Não sei. Sempre fui chamada de Maria por todos mas a partir dessa altura comecei a tomar consciência do meu nome total: Maria Vitória.
Vitória era o que eu precisava na minha vida, a minha vida mesmo minha, não a vista pelos outros.

OUTRAS COISAS

Quem vê uma dona-de-casa acha sempre que ela tem buço, cheira a refogado, debulha-se em lágrimas com as novelas da televisão, usa a imitação barata do perfume francês comprado na feira e sabe ler exclusivamente os rótulos dos detergentes e fazer as contas ao quilo das batatas.
Nunca fui assim e nem pretendi ficar na obscuridade só porque me casei.
De facto, durante o primeiro ano de matrimónio ainda frequentei a universidade mas as constantes pressões do conjuge e da familia deram-me um cansaço que me tirou toda a vontade de fazer o esforço necessário para levar os estudos a bom termo.
Sempre fui boa aluna, acima da média, diga-se.
Nunca perdi o hábito de pesquisar nas horas livres, ler tudo o que me viesse parar às mãos e sempre que possível, nas tardes mais desafogadas das lides domésticas, meter pés a caminho e ir a um museu, a uma biblioteca, ver uma exposição.
Não contei destas actividades cá em casa. Revoltar-me-ía - em silêncio, sei-o - pela ironia grossa e desbocada do meu amantissimo esposo.
Agora mais do que nunca, estas coisas tornaram-se importantes na minha vida.
Mas secretas, só minhas.

HÁBITOS

Servi o almoço habitual do dia de finados, com toda a pompa e circunstância exigida a uma boa dona de casa que recebe os sogros e outros parentes mais chegados.
Fizeram-se as orações de inicio de refeição como bons católicos que todos somos.
Comeram imensamente e beberam de igual modo, alargaram os cintos e elas deram folga aos pés gordos e inchados nos sapatos de material plástico que lhes assam os calos.
Enquanto conversavam na sala, aproveitei para dar uma arrumação na cozinha.
O meu cunhado, marido da irmã do meu marido entrou e pediu um copo de água. Enquanto bebía despía-me com os olhos, depois num á-vontade que nunca lhe dei agarrou-me e apertou-me o peito, mordeu-me os seios, enfiou a mão por baixo das minhas saias e chamou-me puta.
Olhei-o nos olhos.
O cretino não entendeu rigorosamente nada e desatou a arfar no meu ouvido que eu gostava e que ficaría molhada para ele.
Dei-lhe uma joelhada nos testículos. Ele dobrou-se e abafou um grito de dor. Aproveitei e dei-lhe outra joelhada no queixo, mordeu a lingua, ficou a sangrar.
Atirei com o copo para o chão, agarrei um pedaço de vidro e passei-lho na boca. Novo golpe, desta vez um berro audível.
Toda a gente acudiu à cozinha.
Eu cunhada dedicada a estancar-lhe o sangue com o pano de cozinha. Acidentes domésticos, vá lá entender-se, o copo estilhaçou-se na boca enquanto bebía água...
Parece que se tornou um hábito eu espancar os homens desta familia.

FALAR

O jantar que servi a pedido do meu marido foi um sucesso. Esmerei-me, fiz as delicias dos convidados com o meu tempero e a minha boa disposição, sempre disponível, sempre agradável.
O fulano que vinha como um pneu sobresselente deu-me uma cantada impressionante mas eu, cortez, fiz de conta que não percebía, dei o braço ao meu marido e fiz o papel de esposa amantissima.
Depois que todos saíram e eu já bem tarde e estoirada, arrumava a cozinha, ele veio ter comigo e disse-me desculpa e obrigado, que não sabía o que tinha acontecido, que apagássemos tudo e começássemos do zero.
Sorri-lhe, disse-lhe que não havía nada para desculpar e já nem me lembrava do que se tinha passado.
Ele também me sorriu, agarrou-me na mão, beijou-ma e disse que eu estava linda, que tinha sido um encanto, uma verdadeira senhora. Depois abraçou-me com muita força, encostou o nariz ao meu pescoço, cheirou-me, mordiscou-me a orelha, beijou-me os lábios.
Foi nesse instante que tive um click e descobri como pôr em marcha aquela idéia que me consumía dia e noite.
Devolvi-lhe o beijo, lambi-lhe os lábios, as comissuras, chupei-lhe a lingua, fechei os olhos e passeei a minha mão no sexo dele que começara a ficar duro.
Ele ficou completamente louco, em meia dúzia de anos de casados nunca tinhamos tido tal tipo de intimidades, era o velho missionário e a seco cá vai disto.
Começou a falar pelos cotovelos, a pedir isto e aquilo, a maior parte das coisas eu nem percebía, continuava a beijá-lo como se quisesse comer-lhe a boca e agarrada ao sexo erecto não paráva o movimento. De repente ele sucumbiu.
Ejaculou.
Manchou as calças, eu lavei as mãos e os dentes e foi a última vez que nos tocámos.

DEPOIS

As coisas andaram muito tranquilas desde aquela noite.
Durante quase um mês não dirigimos palavra um ao outro. Ele saía para trabalhar, eu fazía as minhas tarefas de dona-de-casa. Ele voltava e eu tinha a casa arrumada e o jantar pronto a ser servido. Dormíamos na mesma cama, de costas com costas.
Todas as noites aquela idéia ocupava mais espaço dentro de mim, tomava forma, parecía uma visão, um mandamento.
Não sabía muito bem como executá-la. Só sabía que o quería fazer, que o tinha de fazer.
Um dia, à hora do jantar ele disse que precisava que eu preparasse qualquer coisa especial para receber umas pessoas, não muitas, dois casais e um fulano qualquer. Disse-lhe que sim.
Nunca conversámos sobre o que sucedera naquela outra noite.
Nem os porquês nem a minha reacção.
E agora, a esta distância, não passa de um pormenor.

A PRIMEIRA VEZ

Recordo-me como se fosse hoje.
Tínhamos recebido um casal conhecido para jantar. As coisas começaram logo a dar para o torto mal nos sentámos à mesa. Faltava o saca-rolhas e ele chamou-me estúpida pelo meu esquecimento. Durante toda a refeição elogiou a roupa, a maquilhagem, os brincos que a outra usava e comparava-a comigo, dizía-me para pôr os olhos na beleza dela.
Estava envergonhada. A outra ría-se baixinho, como um pequeno rato a desbastar o queijo e o banana do marido concordava com tudo o que o meu dizía.
Senti-me reles, pouco, inferior a qualquer mulher. Fiquei nervosa, tudo me tremía nas mãos, parecía que era a primeira vez que recebía gente em casa.
Ele bebeu muito durante toda a noite, entaramelava a lingua, as palavras saíam pela metade, esquecía-se do que quería dizer, ría-se de boca aberta, sem pudor, batía as palmas ruidosamente.
Quando por fim o casal se foi embora, também já bem bebidos, ele voltou-se para mim, agarrou-me o pescoço, apertou, apertou, senti-me tonta com a sensação da cabeça ir explodir.
Não sei onde fui arranjar forças...
Dei-lhe uma joelhada nas partes que o fez dobrar e gritar de dor.
Foi nessa altura que o pontapeei. Muito. Repetidas vezes até me saltar o sapato do pé.
Essa foi a primeira e única vez que ele tentou agredir-me.