MURROS NA PAREDE

Tão mais forte que as armas, são as palavras: contundentes, perfurantes, fatalmente lentas e duradouras na sua acção de largo espectro.
Depois de ditas é impossível reter ou recuar no seu efeito, já lançaram a dúvida, a eterna questão sobre a verdade.
O meu marido depois de ter ouvido da minha boca a revelação que lhe fiz deu um murro na parede, esfolou os nós dos dedos, por vários dias a mão passou de inchada a roxo e depois a um amarelo sujo. Berrou, um grito rouco e longo.
Mas pior do que a minha afirmação foi de seguida eu ter-lhe dito que era mentira, era tudo invenção, nada tinha acontecido, eu nunca tivera outro homem para além dele e a minha atitude apenas tinha surgido como vingança por me ter chamado seca.
Não acreditou, pois se o veneno já tinha sido injectado como esquecer o que lhe havía dito, podía eu jurar quantas vezes quisesse que nada alterava o momento em que a suspeita tinha sido plantada. Para a eternidade.
A discussão foi violenta, atirámos acusações um ao outro, objectos que estavam à mão foram armas de arremesso, fizémos da cozinha um verdadeiro campo de batalha, nada ficou esquecido desde os tempos de namoro até ao presente daquela noite, odiei-o mais do que em qualquer outro dia e ele, se não me odiara até aí nesse instante os seus desejos eram acabar com a minha vida.
De preferência de um modo violento e com muito sangue.
Não sei onde passou a noite, só regressou no dia seguinte e vinha estranhamente calmo.
Eu fiz uma mala com alguma roupa, todo o dinheiro que conseguira juntar e fiquei à espera para ver em que é que as modas paravam.

GRITOS

É claro que eu não engravidava porque tinha tomado precauções para tal, mas o meu amantíssimo esposo desconhecía-o.
Desde o inicio do casamento que eu tomava a pílula, religiosamente, infalívelmente, sem nenhum esquecimento. Nunca esteve nos meus planos ter filhos dele, nem mesmo quando as coisas ainda parecíam ter a esperança de se tornarem naquilo que toda a gente me dizía, o amor, o amor há-de chegar e a felicidade, ele tem tudo para te fazer feliz.
Foi um acto de consciência, não quería que filho meu passasse por aquilo que eu havía passado ou, pior ainda, se tornasse como o pai. Não havía outra saída: se fosse mulher sería muito provavelmente mais uma empregada sem salário; se fosse homem talvez um dia perdesse a cabeça e tentaría bater na sua mulher.
O silêncio que se instalou depois da minha afirmação podía ser de vidro.
Depois estilhaçou-se. Ele berrou, chamou-me seca, estéril, incompleta.
Confesso que nesse dia não aguentei e respondi-lhe à provocação. Podería ter evitado se tivesse pensado, bastaría ter-me mantido calada, mas foi mais forte do que eu e num dos instantes em que se quedou de palma aberta à frente da minha cara, gritei-lhe eu que não podía ter filhos dele. Dele. Que já havía emprenhado de outro. O problema era dele não meu, incompleto era ele não eu.

PARA MIM, MARIA

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...e haja sempre terra e estrume
e o sol case com a chuva
e nasçam sempre
novas folhas.



Do Triliti Star da Alcova dos Pesadelos



DESCENDÊNCIA

Aos poucos o tempo foi ficando mais ameno, os dias maiores.
Os humores ficam diferentes com a exposição à luz, apetece falar mais, a estação das explosões de vida renova igualmente a confiança na crença do homem bom. Claro que isto faz parte da educação a que somos todos sujeitos desde a infância, mas é inegável o efeito do sol sobre o comportamento de todos os seres vivos.
Eu tornei-me menos tensa.
O meu marido falou-me em filhos.
Elogiou o peixe assado, a temperatura do vinho, a tarte de maçã, o café cremoso. Depois foi seguindo conversa, muito calmo, lento, sobre as minhas ocupações, perguntou como ía o curso de Espanhol, divagou sobre o tempo bom, entrou pelas nossas divergências e terminou que me fazía falta ter os dias mais ocupados, que me faría bem a maternidade. Estava na altura. Todos esperavam por isso, éramos um casal saudável e o lógico sería sermos pais. Ele quería, a mim fazía-me falta, era o desejo comum de todas as mulheres. Tudo sería diferente.
Depois sorriu, esticou o braço na direcção da minha mão, aproximou-se, não havíam milagres. Para que isso acontecesse era imprescindível que um homem e uma mulher estivessem juntos, a tal história da sementinha e da terra à espera de ser cultivada.
Mantive-me calada. Não quería que se apercebesse da minha surpresa e precisava de algum tempo para processar tudo o que estava a ouvir e poder agir.
Falou-me nos quartos separados, que assim não íamos lá.
Levantei-me, rapei os pratos para a travessa, empilhei-os e disse-lhe que não podía ter filhos.

TESTES

Nunca fui uma mulher verdadeiramente feliz nem verdadeiramente triste. Acho que nunca senti nenhuma emoção que me fizesse vibrar ao ponto de dar pulos de contente, bater palmas, essas manifestações que vejo nos outros quando ganham uma corrida ou são ganhadores únicos da lotaria. Também nunca me perdi por lágrimas a fio, fechada no quarto, a moer sobre alguma coisa que me deixasse infeliz.
Na verdade, acho que nunca experimentei outras emoções mais profundas para além da raiva, da revolta e da vontade de desejar muito uma coisa, mesmo que em sonhos. Mas até isso foi de natureza passageira, passado algum tempo não sentía mais nada.
Não me considero fria, apática mas o meu carácter nunca se revelou esfusiante ao demonstrar agrado e reconhecimento. Não sei como se faz, se é que já nasce connosco ou se se adquire. Ou então, a vida nunca me proporcionou a oportunidade para ser de outra forma.
Naqueles tempos o que me mantinha viva era o meu projecto. Acabei por compreender que mais não sería do que uma forma de me testar a mim própria, saber se de facto sería aquele sonho o que me daría o click para me ligar e desligar de vez da minha dormência.

SOLILÓQUIO

Se há coisa que custe é termos alguma noticia que nos satisfaz e enche e não termos ninguém com quem a dividir.
Voltei para casa nesse dia sem me aperceber do trajecto do autocarro, foi como se tivesse estalado os dedos e aparecesse no destino sem viagem de regresso.
O convite feito não me saía da cabeça, por um lado tudo se inclinava para aceitá-lo, por outro a prudência. E por último, a inviabilidade de me meter a 100% numa casa deixando a minha, as obrigações e principalmente não dar o flanco sobre o que fazía.
Constatei com alguma tristeza que me era impossível dizer sim.
Não tinha possibilidade alguma de aceitar: menos um serviço, menos rendimentos, mais horas em casa perdida sobre o que ocupar o meu tempo.
Lembro-me que naquela altura senti uma enorme revolta. Era uma mulher adulta e prisioneira, não podía fazer o que tinha vontade, estava agarrada a um casamento que detestava e ainda não tinha dinheiro suficiente para largar tudo o que me incomodava e desaparecer no mundo.
Fiz muitas perguntas a mim mesma nessa noite. Não consegui responder-me a todas. Mas a determinação sobre o que quería para mim afirmou-se com tal força que foi como se tivesse assinado um pacto de sangue.
No dia seguinte, embora não fosse dia de ir a casa daquela senhora, meti pés a caminho para lhe dar a resposta. Achei que podería negociar com ela a minha permanência nos mesmos termos que viera a acontecer até então.
Mas não encontrei ninguém em casa.
Deixei-lhe as chaves na caixa do correio e regressei, mais sózinha que nunca.