Tão mais forte que as armas, são as palavras: contundentes, perfurantes, fatalmente lentas e duradouras na sua acção de largo espectro.
Depois de ditas é impossível reter ou recuar no seu efeito, já lançaram a dúvida, a eterna questão sobre a verdade.
O meu marido depois de ter ouvido da minha boca a revelação que lhe fiz deu um murro na parede, esfolou os nós dos dedos, por vários dias a mão passou de inchada a roxo e depois a um amarelo sujo. Berrou, um grito rouco e longo.
Mas pior do que a minha afirmação foi de seguida eu ter-lhe dito que era mentira, era tudo invenção, nada tinha acontecido, eu nunca tivera outro homem para além dele e a minha atitude apenas tinha surgido como vingança por me ter chamado seca.
Não acreditou, pois se o veneno já tinha sido injectado como esquecer o que lhe havía dito, podía eu jurar quantas vezes quisesse que nada alterava o momento em que a suspeita tinha sido plantada. Para a eternidade.
A discussão foi violenta, atirámos acusações um ao outro, objectos que estavam à mão foram armas de arremesso, fizémos da cozinha um verdadeiro campo de batalha, nada ficou esquecido desde os tempos de namoro até ao presente daquela noite, odiei-o mais do que em qualquer outro dia e ele, se não me odiara até aí nesse instante os seus desejos eram acabar com a minha vida.
De preferência de um modo violento e com muito sangue.
Não sei onde passou a noite, só regressou no dia seguinte e vinha estranhamente calmo.
Eu fiz uma mala com alguma roupa, todo o dinheiro que conseguira juntar e fiquei à espera para ver em que é que as modas paravam.