FALAR

O jantar que servi a pedido do meu marido foi um sucesso. Esmerei-me, fiz as delicias dos convidados com o meu tempero e a minha boa disposição, sempre disponível, sempre agradável.
O fulano que vinha como um pneu sobresselente deu-me uma cantada impressionante mas eu, cortez, fiz de conta que não percebía, dei o braço ao meu marido e fiz o papel de esposa amantissima.
Depois que todos saíram e eu já bem tarde e estoirada, arrumava a cozinha, ele veio ter comigo e disse-me desculpa e obrigado, que não sabía o que tinha acontecido, que apagássemos tudo e começássemos do zero.
Sorri-lhe, disse-lhe que não havía nada para desculpar e já nem me lembrava do que se tinha passado.
Ele também me sorriu, agarrou-me na mão, beijou-ma e disse que eu estava linda, que tinha sido um encanto, uma verdadeira senhora. Depois abraçou-me com muita força, encostou o nariz ao meu pescoço, cheirou-me, mordiscou-me a orelha, beijou-me os lábios.
Foi nesse instante que tive um click e descobri como pôr em marcha aquela idéia que me consumía dia e noite.
Devolvi-lhe o beijo, lambi-lhe os lábios, as comissuras, chupei-lhe a lingua, fechei os olhos e passeei a minha mão no sexo dele que começara a ficar duro.
Ele ficou completamente louco, em meia dúzia de anos de casados nunca tinhamos tido tal tipo de intimidades, era o velho missionário e a seco cá vai disto.
Começou a falar pelos cotovelos, a pedir isto e aquilo, a maior parte das coisas eu nem percebía, continuava a beijá-lo como se quisesse comer-lhe a boca e agarrada ao sexo erecto não paráva o movimento. De repente ele sucumbiu.
Ejaculou.
Manchou as calças, eu lavei as mãos e os dentes e foi a última vez que nos tocámos.

DEPOIS

As coisas andaram muito tranquilas desde aquela noite.
Durante quase um mês não dirigimos palavra um ao outro. Ele saía para trabalhar, eu fazía as minhas tarefas de dona-de-casa. Ele voltava e eu tinha a casa arrumada e o jantar pronto a ser servido. Dormíamos na mesma cama, de costas com costas.
Todas as noites aquela idéia ocupava mais espaço dentro de mim, tomava forma, parecía uma visão, um mandamento.
Não sabía muito bem como executá-la. Só sabía que o quería fazer, que o tinha de fazer.
Um dia, à hora do jantar ele disse que precisava que eu preparasse qualquer coisa especial para receber umas pessoas, não muitas, dois casais e um fulano qualquer. Disse-lhe que sim.
Nunca conversámos sobre o que sucedera naquela outra noite.
Nem os porquês nem a minha reacção.
E agora, a esta distância, não passa de um pormenor.

A PRIMEIRA VEZ

Recordo-me como se fosse hoje.
Tínhamos recebido um casal conhecido para jantar. As coisas começaram logo a dar para o torto mal nos sentámos à mesa. Faltava o saca-rolhas e ele chamou-me estúpida pelo meu esquecimento. Durante toda a refeição elogiou a roupa, a maquilhagem, os brincos que a outra usava e comparava-a comigo, dizía-me para pôr os olhos na beleza dela.
Estava envergonhada. A outra ría-se baixinho, como um pequeno rato a desbastar o queijo e o banana do marido concordava com tudo o que o meu dizía.
Senti-me reles, pouco, inferior a qualquer mulher. Fiquei nervosa, tudo me tremía nas mãos, parecía que era a primeira vez que recebía gente em casa.
Ele bebeu muito durante toda a noite, entaramelava a lingua, as palavras saíam pela metade, esquecía-se do que quería dizer, ría-se de boca aberta, sem pudor, batía as palmas ruidosamente.
Quando por fim o casal se foi embora, também já bem bebidos, ele voltou-se para mim, agarrou-me o pescoço, apertou, apertou, senti-me tonta com a sensação da cabeça ir explodir.
Não sei onde fui arranjar forças...
Dei-lhe uma joelhada nas partes que o fez dobrar e gritar de dor.
Foi nessa altura que o pontapeei. Muito. Repetidas vezes até me saltar o sapato do pé.
Essa foi a primeira e única vez que ele tentou agredir-me.