VINGANÇAS

Só tomei verdadeira consciência da importância do dinheiro quando me vi privada dele.
Se bem que tivesse um pequeno pecúlio, todo ganho com o meu esforço, não gastara um único cêntimo, o que o remetía para um capricho que me fazía sentir vitoriosa e falsamente independente. Sempre vivera às custas de alguém, aperceber-me-ía deste tipo de escravatura muito em breve e da maneira mais sentida na carne. Tirando os muito, muito ricos, o dinheiro nunca é suficiente. Ou pelo menos naquele tempo ainda não o era: Dava para me aguentar o máximo uns dois meses e alojada numa pensão rasca.
A vida continuou, agora sem palavra alguma e também sem o meu marido deixar o dinheiro que habitualmente me dava para governar a casa durante o mês.
De inicio pensei que fora esquecimento, mas os dias passaram até o mês terminar, entrar no seguinte e nada.
Percebi que esta sería a sua forma de me dizer que ele é que mandava, o macho era ele, ele era o dono da casa e de mim.
Entrei no jogo. As contas da luz, da água, do telefone e do gás venceram-se, cortaram tudo. Esgotei a existência da arca-frigorifica e dos enlatados, deixou de haver comida.
Ele fez da casa apenas um sitio para dormir. Deixei de o ver, mas sentia-o chegar.
Eu deixei de limpar a casa. Aproveitava quando ía trabalhar, tomava banho e lavava a minha roupa por esses sitios alheios, comi da sopa que deixava feita para os donos das casas. Doutras vezes aparecía em casa dos meus pais e petiscava por lá sem dar a entender a fome que tinha ou o extremo em que vivía.
Não tinha que me lamentar, afinal fora eu que abrira a boca e arranjara esta situação.
Só precisava de mais algum tempo e mais algum dinheiro para me ir embora. O meu projecto tería que ficar adiado, por agora limitava-me a experimentar as técnicas de sobrevivência.

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