FACTURAS

Escusado será dizer que se ganhei uma casa temporariamente, a factura que paguei teve consequências nefastas. Para além das dores, da cicatriz na cabeça e do dente, o meu nariz é até hoje um barómetro das mudanças de tempo.
Mas não ficou por aqui. Perdi as minhas clientes onde fazía limpezas e que eram um meio de subsistência. Por outro lado, vigiada de perto pela empregada russa e sem saber se esta era uma delatora dos meus passos, comecei a sentir-me na obrigação de prestar contas à dona da casa. E essas contas não eram dinheiro, mas de algum modo, dar-lhe a entender o quão agradecida estava e como tal, mostrar-lhe confiança e contar-lhe alguns pedaços da minha vida.
Como me mantinha recolhida no quarto enquanto a outra andava a espanar, tive tempo de sobra para imaginar o que podería contar e de que forma essas revelações "dolorosas" da minha vida privada poderíam influenciar a estadia sem que me comprometessem a provar que o que eu dizía era mesmo a verdade.
Curioso... A esta distância, dá-me vontade de sorrir perante as mentiras que contei. Não tanto pelas mentiras em si, mas como as pessoas acreditam porque querem ou precisam de acreditar naquilo que ouvem e se comovem face ao relato da miséria alheia.
Tornei-me uma mentirosa compulsiva ao longo da minha vida. Nunca consciencializei esse facto porque não o fiz deliberadamente: as circunstâncias empurraram-me para uma auto-defesa e essa foi a forma que achei. Não estaría onde estou agora se não fosse esse deturpar da realidade, continuamente faço crer aos outros aquilo que eles precisam de ouvir e se convencer. Mas não vejo a minha existência como uma fraude, assente em maus principios. No fundo, as minhas mentiras fazem os outros felizes, é isso que eles encontram quando me procuram, é esse o meu negócio, e é nisso que sou profissional: Vender felicidade.

4 comentários:

Marina disse...

Grande negócio!
:)

Carlos Pires disse...

E se lhe aparecerem pessoas que só estejam interessadas em formas de felicidade assentes na verdade? Também vende dessa ou é só da outra?

casa de passe disse...

Maria, ó filha,

isso é o qua fazem as outras duas lá em casa. com essa capacidade podes ter a certeza de que te safas na vida,


Alice, a Fininha

Manuel Veiga disse...

vender felicidade. que melhor mister?!!!...

(e querias tu mudar de género! "si pudieras vivir nuevamente"... rss )