EMBATES

Nessa noite aguentei-me estoicamente.
Mal me tinha nas pernas, a cara desfigurada, inchada, embora com comprimidos as dores eram muitas, sentía que tinha sido cilindrada.
Preparei o jantar, pus a mesa, sentei-me à espera do meu marido. E do embate. Quando me olhou ficou horrorizado, desatou a fazer perguntas, se eu tinha sido assaltada, se tinham entrado em casa, o estado em que estava. Deixei-o falar. Tinha que me poupar. De repente pararam as perguntas, aproximou-se muito do meu rosto, ficou à espera da minha reacção. Disse-lhe que tinha caído do escadote quando limpava os candeeiros de tecto.
Fez-se um silêncio tremendo.
De dedo apontado à minha cara começou a gritar que nem um desalmado que eu tinha um amante. Um amante que me tinha chegado a roupa ao pêlo. Vociferava, dizía calões repetidamente, chamou-me puta. Chamei-lhe ridiculo. Disse que se ía divorciar de mim, que não me aguentava mais, que não quería um casamento destes, que estava infeliz.
Pedi-lhe que se sentasse, que me ouvisse. Mas nada o acalmava. Levantei-me e dirigi-me ao quarto, deu-me um puxão no cabelo e eu gritei com dores. Caí de rabo.
De pé, falava na minha frente, ameaçando-me, dizendo o que me ía acontecer, que me ía pôr na rua, que ele era um homem, ele é que mandava.
Respondi-lhe que fizesse o que entendesse. Nunca conseguiría provar nada de nada em Tribunal, não havíam amantes e eu sempre fora uma excelente dona-de-casa e quanto às obrigações conjugais era a palavra de um contra outro. Tería que pagar muito para se desfazer de mim.
Depois segui de gatas para o quarto e fechei a porta à chave.

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