SEM ANESTESIA

Depois da euforia e conforme o dia foi avançando, a pequenina mala com que saí de casa parecía um trambolho, uma coisa a despropósito e as perguntas foram aparecendo aos poucos, receosas da resposta que eu sabía de antemão.
Para onde ir?
Onde dormir?
Que comer, onde tomar banho, onde vestir-me, onde largar a mala?
De repente vi-me sózinha, perseguida, desconfiada que viessem atrás de mim, tinha de me esconder onde não me encontrassem.
Mentalmente contei o meu dinheiro. Dava perfeitamente para passar a noite num hotel, coisa modesta, não estava a fim de gastar do meu pecúlio e além disso, todo o dinheiro era pouco para os meus objectivos. Constatei que não conhecía nada da cidade onde moro. Hotéis, que tipo de hotéis não fazem perguntas nem pedem o BI, esse era outro problema.
Recordei-me do ginásio, do treinador, da queca que tinhamos dado. Mas voltar lá estava fora de questão. Não saía duma para me meter noutra.
Pedir abrigo aos meus pais sería entregar-me ao meu marido e, com toda a certeza com um enxovalho em cima se não umas boas chapadas pela mão do meu querido progenitor.
Envolvida neste beco sem saída, passei a cidade de um lado ao outro de autocarro. Saía de um, tomava outro e depois outro. Ficou escuro, noite mesmo, pouca gente na rua, menos autocarros.
Lembrei-me então daquela mulher onde trabalhara e que me quería a tempo inteiro.
Sem saber o que ía encontrar bati-lhe a porta. Enquanto esperava que atendesse, inventei mil e uma histórias para lhe contar, nunca a verdadeira.
Mas não estava ninguém em casa.

4 comentários:

o Reverso disse...

pois é, a solução pode passar, embora provisoriamente, pot tomar conta de pessoa idosa. entretanto organizas-te e quando ela morrer, ou antes, já esás com o problema resolvido.
tens que continuar a pensar em ti e não nos outros.

Manuel Veiga disse...

para grandes becos, grandes saídas!...

a solução está ali mesmo. à esquina...

envolvente a tua escrita.

Manuel Veiga disse...

ah, pois : "rumor...", claro.

marina disse...

Maria
Mi dispiace
:(