Nada é pior para as decisões do que a influência dos sentimentos.
Se numa primeira análise a minha vontade foi ceder aos impulsos e dar uma tareia de enxovalho àquela mulher, deitando tudo a perder e todas as resignações a que me tinha sujeito, assim que saí daquele quartinho a lucidez voltou.
A próxima etapa era conseguir passar no teste das duas semanas e nem que me virasse do avesso, eu ía conseguir.
Foi fácil aperceber-me quem podería estar do meu lado e quem estava contra: a cozinheira e uma outra empregada tiraram-me as medidas e acharam que me punham no meu lugar de última a chegar e sem direito a nada. O caseiro foi simpatia à primeira vista e até hoje mantenho uma relação cordial com ele. Não me julga nem me condena, sempre me escutou e a sua simplicidade tem a grande vantagem de eu saber que aquilo que vejo é aquilo que ele é. Ensinou-me muito, experiências de vida quero dizer, e naquele tempo foi a minha referência a uma sanidade que de vez em quando se desviava.
Dos donos da casa não havía nada a acrescentar: Eram os donos e estava tudo dito, não havíam socializações com a criadagem.
Remeti-me obedientemente ao meu papel. Só as noites é que me custavam, sentía-me sufocar, mas era também à noite que arranjava o sossego necessário para delinear os próximos passos e alimentar como razão para toda a minha existência o meu projecto secreto.
O período experimental passou depressa, depois veio outro mês e mais outros e tudo parecía ter-se endireitado até ao dia em que o meu marido apareceu.
2 comentários:
ó sorte!, a tua vida é um azar pegado...
entrega-o ao caseiro. ele trata-lhe da saúde...
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