MALDIÇÕES

No dia seguinte lá fui eu.
Pus um ar necessitado qb. mas não miserável ao ponto de se sentirem incomodados.
Aquela casa era melhor que a encomenda. Aliás, era quase uma quinta, terreno com fartura, piscina, caseiro, cozinheira, um luxo do qual eu só ouvira falar e que nunca tinha presenciado.
Fui recebida na cozinha como convém aos empregados.
A senhora da casa começou a conversa dando-me a entender que quem precisava era eu, eu era a criada ela a patroa, tudo muito bem separado, nada de sorrisos desperdiçados e para começar ficaría duas semanas à experiência, depois logo se vía o meu desempenho.
Mas assim que me apercebi que a vaga era para uma interna, decidi que a oportunidade não me escaparía. Para além de ganhar e aumentar o meu pequeno pecúlio, ainda ficava com um tecto para me abrigar.
Folgas, só uma, à segunda-feira.
O meu trabalho era basicamente limpar e arrumar. Nada que me assustasse, nada que eu não tivesse feito em solteira e depois na minha casa e aí, sem receber nenhum ordenado.
Mostrou-me o quarto onde eu passaría a ficar, mas aquilo era tudo menos um quarto, um cubículo apertado e sem janelas, escuro, um cómodo destinado a um escravo de castigo.
Naquele instante senti um desejo imenso de vingança, uma vontade que controlei e me deixou nauseada. Apeteceu-me cuspir na cara daquela emproada, vomitar-lhe em cima as minhas capacidades, o meu curso de Espanhol, os meus conhecimentos sobre guerra, táctica, anatomia e outras pequenas coisas que me passaram pela cabeça como um filme.
Naquele instante revi momentos da minha vida em que recebera eu como dona de uma casa, e os elogios que me havíam tecido e agora, a minha vida parecía estar reduzida àqueles metros quadrados que me sufocavam.
Naquele instante, amaldiçoei o meu marido, a mulher que me acolhera e agora esta.
E amaldiçoei a minha sorte por ter nascido.

3 comentários:

o Reverso disse...

espero que te vingues, não sejas parva.

o Reverso disse...

desforra-te...

Manuel Veiga disse...

vinga-te! fila-lhe o patrão...